terça-feira, 7 de dezembro de 2010

OGM's

Organismos Geneticamente Modificados ou OGM
·         Por Biologia
·         Publicado 19/08/2010
·         Biologia
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Biologia
Biologia para o Vestibular
Por: Delcídio de Souza Neto e Paula Homem-de-Mello Universidade Federal do ABC
Existe um grande debate sobre a produção e comercialização de alimentos transgênicos. Você sabe por que este assunto é tão polêmico?
Vamos às definições: transgênicos ou Organismos Geneticamente Modificados ou OGM são aqueles organismos que adquiriram, pelo uso de técnicas modernas de engenharia genética, características de um outro organismo, algumas vezes bastante distante do ponto de vista evolutivo.
Por exemplo, se isolarmos os genes que determinam a cor da casca da maçã e os pusermos numa banana, teremos uma banana que ao amadurecer não será amarela, mas sim vermelha. Assim, esta banana vermelha passará a ser considerada um alimento transgênico. Outros exemplos de transgênicos podem ser encontrados no artigo “Alimentos transgênicos: solução ou problema?” no número 17 desta Revista.
Os transgênicos não surgiram apenas por mera curiosidade de cientistas, mas principalmente pela necessidade de aumentar a produção de alimentos. Uma planta com maior teor de nutrientes poderia saciar a fome e trazer benefícios à saúde. Além disso, é possível aumentar a produtividade agrícola sem aumentar a área cultivada, o que, evidentemente, aumentaria os lucros dos produtores, sem afetar áreas de preservação ambiental.
A primeira planta transgênica foi obtida em 1983, com a incorporação de um DNA de bactéria. Já em 1992 foi obtido um tomate transgênico, com deterioração retardada que, em 1994, passou a ser comercializado nos Estados Unidos da América, abrindo caminho para a soja resistente a herbicida, o milho, a batata e centenas de outras possibilidades. Não há dúvida de que estas técnicas chegaram para ficar, embora desde o início tenha havido grande polêmica sobre o seu uso.
Em janeiro de 1995, foi regulamentada a primeira lei de biossegurança brasileira, que estabelece a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), suas atribuições e competências. Recentemente, foi aprovada uma nova lei de biossegurança (Nº. 11.105) que estabelece novas normas de segurança e mecanismos de fiscalização das atividades que envolvam transgênicos e seus derivados, reestruturando a CTNBio.
Resumidamente, a CTNBio é composto por um grupo multidisciplinar de cientistas, que presta apoio técnico ao Governo Federal na formulação, atualização e implementação da Política Nacional de Biossegurança relativa a transgênicos, bem como no estabelecimento de normas técnicas de segurança e pareceres técnicos conclusivos referentes à proteção da saúde humana, dos organismos vivos e do meio ambiente, para atividades que envolvam a construção, experimentação, cultivo, manipulação, transporte, comercialização, consumo, armazenamento, liberação e descarte de transgênicos e derivados.
A primeira liberação de um organismo geneticamente modificado no país se deu em 2003, mediante a Lei Nº. 10.688, com a permissão da comercialização da soja Roundup Ready®, produzida pela Monsanto. Nestes últimos anos, os agricultores que vêm plantando soja transgênica firmaram um Termo de Compromisso, Responsabilidade e Ajustamento de conduta junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), que define área, localidade do plantio e responsabilidades do agricultor advindas do uso da biotecnologia.
Muitos pesquisadores, ambientalistas e cientistas apontam riscos decorrentes da produção e consumo dos alimentos transgênicos que vão muito além dos aspectos da segurança nutricional dos alimentos.
Do ponto de vista ecológico, por exemplo, podem ocorrer: eliminação de insetos e microorganismos do ecossistema, devido à exposição a substâncias tóxicas; a contaminação de culturas convencionais; a geração de ervas daninhas e insetos resistentes a herbicidas e inseticidas; contaminação genética da biodiversidade e contaminação dos solos e lençóis freáticos, dentre outros.
Também há o temor de que o cultivo e o consumo de transgênicos trariam riscos à saúde humana e animal, como o aparecimento de alergias, e não seria possível controlar uma dessas conseqüências negativas, uma vez que os transgênicos são formas vivas e podem sofrer mutações e se multiplicar no meio ambiente.
Já do ponto de vista econômico, a introdução de genes capazes de tornar uma segunda geração de sementes estéreis, pode fazer com que os produtores fiquem totalmente dependentes dos produtores dessas sementes. Além disso, há o temor de que ocorra redução da produtividade das colheitas convencionais, o que levaria à exclusão dos pequenos agricultores que não teriam condições financeiras de comprar sementes transgênicas.
A oligopolização do mercado de sementes, que permite às grandes empresas terem o controle do preço final dos produtos, levaria ao aumento dos preços desses, tendo em vista a vulnerabilidade dos mecanismos estatais de controle da produção de produtos agrícolas no Brasil. Ainda, são apontados como possíveis riscos: a desnacionalização da pesquisa e a perda de mercados consumidores de produtos agrícolas brasileiros, pelo temor que os outros países têm de consumir alimentos transgênicos.
Tendo em vista os problemas econômicos que os transgênicos podem causar, no Brasil, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) ofereceu aos produtores de soja, desde maio de 2006, 11 variedades de sementes geneticamente modificadas adaptadas às várias áreas de plantio do país. As novas variedades, desenvolvidas em cooperação técnica com a Monsanto, têm seu plantio e comercialização autorizados pela nova Lei de Biossegurança, sancionada em 24 de março.
À medida que foi intensificado o plantio de soja transgênica no país, a sua presença em alimentos e produtos finais destinados ao consumo humano ou animal também cresceu. Em vários países, inclusive no Brasil, a legislação para a rotulagem de alimentos estabelece limites permissíveis da presença do transgênicos na composição dos mesmos. As expressões “podem conter soja transgênica” e “pode conter ingrediente produzido a partir de soja transgênica”, devem estar contidas no rótulo, independente do percentual da presença de soja transgênica, além de apresentar o símbolo “T”.
Estas informações obrigatórias nos rótulos indicam claramente a necessidade de metodologias confiáveis de detecção e quantificação de transgênicos em grãos e alimentos. Deste modo, metodologias vêm sendo desenvolvidas e aprimoradas para garantir o cumprimento da legislação e padronização dos resultados.
É importante acompanhar de perto o desenvolvimento das pesquisas científicas sobre os efeitos da produção e ingestão de organismos geneticamente modificados, pois o simples aviso nas embalagens só indica a presença ou não desse alimento, mas não indica o que isso significa para nossa saúde e para o meio ambiente.
Provavelmente, boa parte da polêmica em torno desse tema seria evitada se a produção e comercialização de transgênicos tivessem aguardado mais resultados dos estudos científicos em andamento.

Organismos geneticamente modificados

ORGANISMOS GENETICAMENTE MODIFICADOS


1.  INTRODUÇÃO


DEFINIÇÃO DE TRANSGÊNICOS:
Os Transgênicos (ou organismos geneticamente modificados) são organismos que adquiriram, pelo uso de técnicas modernas de Engenharia Genética, características de outro organismo. O termo geneticamente modificado tem sido utilizado para descrever a aplicação da tecnologia do DNA recombinante para a alteração genética de animais, plantas e microorganismos.

HISTÓRICO:
O termo Biotecnologia foi utilizado pela primeira vez em 1919 por um engenheiro agrícola da Hungria, porém as primeiras aplicações biotecnológicas datam de meados de 1800 AC, com o uso de leveduras para fermentar vinhos e pães.
A Genética é uma ciência do século XX, pois, em 1900 as Leis de Mendel foram redescobertas e começaram a ser aplicadas. Nos primeiros ¾ deste século, a genética mendeliana contribuiu significativamente para a sustentação do crescimento populacional de nosso planeta, produzindo maiores safras de alimentos de origem vegetal, aumentando a produtividade de animais e contribuindo para uma maior longevidade humana. O crescimento acelerado do campo da biotecnologia, entretanto, ocorreu a partir da década de 70 com o desenvolvimento da Engenharia Genética (ou Tecnologia do DNA Recombinante).
Com a decifração do código genético e a manipulação do DNA neste último quarto de século, aceleram-se as descobertas científicas e suas aplicações biotecnológicas. Com isso, abriram-se novas perspectivas econômicas nos campos da saúde humana, sanidade animal e produção de alimentos. Surgiram técnicas biotecnológicas como a produção e pesquisa de plantas e animais transgênicos, clonagem de mamíferos, produção de proteínas humanas em microorganismos, plantas e animais, mapeamento do genoma humano, técnicas de detecções e diagnósticos por PCR e Terapia Gênica.
Os primeiros experimentos com plantas transgênicas foram conduzidos em 1986, nos E.U.A e na França. Entre 1986 e 1995, 56 culturas foram testadas em mais de 3.5 mil experimentos realizados em mais de 15 mil locais (34 países). Em 1996 e 1997, o número de países que testaram plantas transgênicas aumentou para 45, tendo sido conduzidos somente nestes dois anos mais de 10 mil experimentos. Neste período, as culturas mais testadas foram a do milho, soja, tomate, canola, batata e algodão. Na maioria dos casos as características genéticas introduzidas foram tolerância a herbicidas, resistência a insetos, qualidade do produto e resistência a vírus.

TECNOLOGIA DO DNA RECOMBINANTE:
O isolamento dos genes de interesse é conduzido por meio de técnicas de clonagem molecular que consiste em induzir um organismo e amplificar a seqüência de DNA de interesse, em sistemas que permitem uma fácil purificação e recuperação do referido fragmento de DNA. Para isso, são utilizados vetores de clonagem (plasmídeos ou vírus) nos quais a seqüência de DNA de interesse é inserida , utilizando a enzima DNA ligase. Quando necessário, o fragmento de DNA de interesse pode ser liberado do vetor por meio de enzimas de restrição. Uma vez isolado o gene de interesse, estes fragmentos de DNA (genes) são incorporados (por meio das técnicas de Engenharia Genética) no Genoma do organismo alvo, resultando em um organismo geneticamente modificado (OGM), cuja característica adquirida passa a ser hereditária.
A tecnologia do DNA Recombinante foi desenvolvida em 1973 e permite a transferência do material genético de um organismo para o outro de forma efetiva e eficiente. Ao invés de promover o cruzamento entre organismos relacionados para obter uma característica desejada, cientistas podem identificar e inserir, no genoma de um determinado organismo, um único gene responsável pela característica em particular. O gene inserido artificial ou intencionalmente no genoma de um organismo é denominado transgene. Desta forma, tem-se alteração precisa e previsível.
Antes do desenvolvimento da tecnologia do DNA Recombinante, a técnica utilizada era a do Melhoramento Clássico, na qual a transferência de genes se dava por meio de cruzamentos (reprodução sexuada), misturando todo o conjunto de genes dos dois organismos em combinações aleatórias. A técnica exigia uma enorme demanda de tempo e não era precisa.

PAPEL DOS TRANSGÊNICOS NA ECONOMIA MUNDIAL:
Neste século, é esperado um rápido desenvolvimento na biotecnologia, especificamente, animal e vegetal. O século passado teve um grande desenvolvimento na biotecnologia microbiana, que se iniciou com a Patente concedida a Weizman com o desenvolvimento da fermentação acetona-butanol. A produção direta de trigo rico em lisina é uma das pesquisas em desenvolvimento e deverá resultar em um produto mais economicamente viável que o enriquecimento do trigo com a lisina obtida de microorganismos. Também o leite deverá ser uma fonte mais rica de proteínas humanas que os microorganismos e as vacinas obtidas de plantas seriam bem mais viáveis e baratas que as atuais.
A modificação genética de microorganismos continua sendo uma importante complementação para as modificações genéticas de plantas e animais, especialmente para a produção de metabólitos secundários, biofertilizantes e biopesticidas, bioprocessamento, biorremediação e tratamento de águas.
De acordo com uma pesquisa sobre a expectativa de comercialização de produtos obtidos de organismos geneticamente modificados nos E.U.A, a agricultura tem um grande potencial de crescimento e uma forte posição nas vendas em volume.


Tabela 1: Comercialização de produtos biotecnológicos nos E.U.A (milhões de dólares)

Setor Econômico
1996
2001
Perspectiva
2006
Taxa de Crescimento Anual
Terapêuticos
7555
13935
25545
13
Diagnósticos
1760
2705
4050
9
Agricultura
285
740
1740
20
Especialidades
275
690
1600
19
Diagnósticos Não-Médicos
225
330
465
8
Total
10100
18400
33400
12

Fonte: Genetic Engeneering News. December,1995, p.6.

Já existem sementes manipuladas sendo cultivadas no mundo em uma área de 30 milhões de hectares e seu mercado deverá movimentar cerca de US$ 3 bilhões.
No Brasil, muitos alimentos transgênicos importados já são comercializados e o país planeja importar 3 milhões de toneladas de milho da Argentina e E.U.A, onde as lavouras transgênicas são liberadas oficialmente.
Na década de 90, os E.U.A aprovaram dezenas de produtos geneticamente modificados e outra grande quantidade apareceu no mercado europeu e o ritmo atual de liberação de Organismos Geneticamente Modificados indica que na primeira década deste século já teremos uma centena de produtos geneticamente modificados nas prateleiras dos supermercados, podendo-se chegar na casa dos milhares em algumas décadas.

II. VEGETAIS GENETICAMENTE MODIFICADOS:

A China foi o primeiro país a comercializar plantas transgênicas no início da década de 90, com a introdução do fumo resistente a vírus, seguido pelo tomate resistente a vírus. Em 1994, a Calgene obteve a primeira aprovação nos EUA para comercializar o tomate transgênico “Flavr-Savr”, que apresentava amadurecimento retardado. A área global de culturas transgênicas cresceu de 1.7 para 27.8 milhões de hectares, em 1998 e as duas principais culturas transgênicas cultivadas em oito países foram soja e milho.
A maioria dos produtos já liberados para a comercialização contêm transgenes que codificam características que visam minimizar estresses ambientais, incluindo tolerância a herbicidas, resistência a insetos e vírus. No entanto, as características que visam aumentar a qualidade nutricional dos alimentos vêm se tornando progressivamente mais importantes e deverão prevalecer nas próximas gerações de produtos transgênicos.
É essencial melhorar a produção e a distribuição de gêneros alimentícios para livrar da fome uma população mundial crescente, enquanto reduzimos os impactos ambientais. Para isso, é necessário utilizar de forma adequada e responsável as novas tecnologias e descobertas científicas.
Alimentos produzidos através de tecnologias de modificação genética podem ser mais nutritivos, estáveis quando armazenados e, em princípio, podem promover saúde trazendo benefícios para consumidores, seja em nações industrializadas ou em desenvolvimento.
Esforços em conjunto, organizados, devem ser feitos para investigar os efeitos potenciais no meio ambiente (positivos ou negativos) dos vegetais transgênicos em suas aplicações específicas. Esses esforços devem ser avaliados tomando-se como referência os efeitos de tecnologias convencionais da agricultura, que estejam atualmente em uso.


BENEFÍCIOS PROMOVIDOS PELOS TRANSGÊNICOS NA AGRICULTURA:

A tecnologia dos transgênicos tem sido utilizada para produzir uma variedade de plantas para alimentação, principalmente com características preferidas pelo mercado, algumas tendo se tornado sucessos comerciais. Os desenvolvimentos resultantes em variedades comercialmente produzidas em países como EUA e Canadá têm se centralizado no aumento de vida em prateleiras de frutas e vegetais, dando resistência contra pragas de insetos ou viroses, e produzindo tolerância a determinados herbicidas. Enquanto essas características têm trazido benefícios aos agricultores, os consumidores dificilmente notaram qualquer benefício além de, em casos limitados, um decréscimo no preço devido a custos reduzidos e aumento da facilidade de produção (University of Illinois,1999; Falck-Zepeda et al 1999).
Temos a seguir, alguns exemplos que mostram o uso da tecnologia da modificação genética de vegetais aplicada a alguns problemas específicos da agricultura, indicando o potencial para obter benefícios:
ü  Resistência a pragas: Temos como exemplo a papaia que é resistente ao vírus Ringspot e que tem sido comercializada e plantada no Hawai desde 1996 (Gonsalves, 1998). Este exemplo prova a eficiência do uso de modificação genética em vegetais visando obter maior resistência a uma praga específica. Outro benefício paralelo está no fato de que, ao se criar maior resistência a pragas, diminui ou se elimina a necessidade do uso de pesticidas. Temos como exemplo as plantações transgênicas resistentes aos insetos do Bacillus thurringiensis , que permitiu uma redução significativa no uso de inseticidas. Porém, alguns pontos devem ser considerados, como o fato de que as populações de pragas ou organismos causadores de doenças podem vir a se adaptar à planta transgênica, como acontece com o uso de inseticidas. Outro ponto a ser levantado é a diferença no biótipo de pragas no mundo, que faz com que plantações resistentes desenvolvidas para serem utilizadas na América do Norte, possam ser resistentes a pragas que não preocupam nos países africanos, por exemplo. Há necessidade, portanto, de maior pesquisa com plantas transgênicas, que tenham se mostrado resistente a pragas regionais, para verificar sua sustentabilidade em face ao aumento de pressões diante de pragas ainda mais virulentas.
ü  Colheitas mais abundantes: Como exemplo temos as pesquisas que envolvem a produção de alimentos de alto-rendimento. O maior exemplo é o trigo semi-anão que possui genes insensíveis à giberelina. A introdução desses genes faz com que se obtenha uma planta mais baixa, mais forte e que aumenta o rendimento da safra diretamente, uma vez que se reduz o alongamento das células na parte vegetativa, de forma que a planta desenvolva mais sua parte reprodutiva (comestível). Estes genes (NORIN 10) agem da mesma forma quando utilizados para transformar outras espécies de plantas importantes como alimento.
ü  Tolerância a pressões bióticas e abióticas: O desenvolvimento de plantações que tenham uma resistência inata ao stress biótico ou abiótico ajudaria a estabilizar a produção anual. Como exemplo, temos o vírus Mottle Amarelo do arroz (RYMV), que devasta os arrozais africanos. Após o fracasso dos métodos convencionais de cruzamentos entre o arroz selvagem e cultivado, os pesquisadores utilizaram uma técnica de imunização genética, através da criação de plantas de arroz transgênico resistentes ao RYMV. Como exemplo de combate ao stress abiótico temos a produção de ácido cítrico nas raízes e a melhor tolerância ao alumínio em solos ácidos (de La Fuente et al 1997).
ü  Uso de terras marginalizadas: Solos com elevados índices de salinidade e alcalinidade podem ser utilizados caso se consiga obter um transgênico que tenha por característica ser resistente nessas condições. Como exemplo, temos um gene de tolerância em manguezais (Avicennia marina) que foi clonado e transferido para outras plantas e através dele pôde-se observar que as plantas transgênicas mostraram-se mais tolerantes a altas concentrações de sal.
ü  Benefícios nutricionais: Temos o exemplo da introdução de genes de para obter maior produção de beta caroteno, precursor da vitamina A, extremamente necessária e cuja deficiência nos animais causa cegueira. A semente deste transgênico apresenta cor mais amarelada (Ye et al,2000). Também já se desenvolveu o arroz transgênico com elevados níveis de ferro, de forma a combater a anemia. Este arroz foi produzido usando-se genes envolvidos na produção de proteínas capazes de ligar o ferro e de uma enzima que facilita a disponibilidade de ferro na dieta humana (Goto et al, 1999). As plantas transgênicas contêm entre 2 e 4 vezes mais ferro do que normalmente encontrado no arroz convencional.
ü  Vacinas e produtos farmacêuticos derivados de plantas transgênicas: Mesmo já estando disponíveis nos países em desenvolvimento, as vacinas apresentam um custo elevado para produzir e utilizar. Diante disso, muitas vezes as vacinas acabam não chegando até as pessoas que realmente necessitam dessa imunização. Para eliminar este problema, os pesquisadores estão estudando o uso de plantas transgênicas na produção de vacinas e fármacos. Como exemplo, temos as vacinas contra as doenças infecciosas do aparelho gastro-intestinal, que são produzidas em plantas como batatas e bananas (Mason H.S. Amtzen C.J. 1995). Outro exemplo interessante está no anticorpo recentemente identificado em sementes de arroz e trigo, que reconhece células cancerosas do pulmão, mama e cólon e que poderá ser muito importante no diagnóstico ou terapia contra o câncer (Stoger et al 2000). O desenvolvimento de plantas transgênicas, para produzir agentes terapêuticos, tem enorme potencial para auxiliar na solução de problemas com a saúde nos países em desenvolvimento.



EXEMPLOS PRÁTICOS DE PLANTAS TRANSGÊNICAS:

ü  Mostarda com alto teor de beta-caroteno: O instituto de pesquisa indiano TEI anunciou recentemente um projeto de desenvolvimento da chamada mostarda dourada, cujo óleo tem alto teor beta-caroteno, precursor da vitamina A, que ajuda a combater diversas doenças, como a cegueira noturna, a xeroftalmia (ressecamento da córnea), diarréias e sarampo. A pesquisa é conjunta com a Universidade de Michigan e a Monsanto. A deficiência em vitamina A atinge cerca de 250 milhões de pessoas no mundo.
ü  Tomates resistentes ao excesso de sal: Segundo a revista “Nature Biotechnology”, graças à injeção de um único gene capaz de absorver um excedente de sal em plantações de tomate, cientistas conseguiram fazer crescer e desenvolver em água contendo forte teor de sódio, tomates perfeitamente comestíveis. O gene introduzido atua sobre uma proteína como um filtro capaz de captar e isolar o sódio excedente.

PROCEDIMENTOS PARA A OBTENÇÃO DE VEGETAIS TRANSGÊNICOS:

Para obter plantas transgênica são necessários:
- um gene de interesse;
- uma técnica para transformar células vegetais através da introdução do gene de interesse.
- uma técnica para gerar uma planta inteira a partir de uma só célula transformada.
Após esta última etapa, teremos uma planta transgênica, porque ela contém, além dos genes naturais, um gene adicional proveniente de outro organismo, que pode ser uma planta, uma bactéria ou até um animal.


Genes de Interesse:
O genoma de uma bactéria contém em média 5000 genes, o de plantas, entre 40000 e 60000, enquanto o genoma humano consiste de aproximadamente 30.000 genes. Os genes são segmentos de um mesmo tipo de molécula: o ácido desoxirribonucléico (DNA) e é esta característica que permite que genes de um organismo sejam potencialmente funcionais em outro.
Uma das possibilidades para isolamento de um gene é a construção de uma “biblioteca genômica” e, para isso, o DNA do organismo contendo o gene de interesse é extraído. Em seguida o DNA é cortado em fragmentos menores utilizando as enzimas de restrição. Estes fragmentos são, então, ligados a outros fragmentos de DNA, mas que podem se replicar em bactérias, onde este material é inserido e replicado por várias vezes. Depois, seleciona-se a colônia de bactérias que contém o fragmento de DNA correspondente ao gene de interesse. Diversos genes de interesse agronômico já foram isolados, entre eles temos:
-                     Gene que codifica uma proteína capaz de modificar herbicidas, inativando-os. Os herbicidas são muito usados no controle de ervas daninhas, entretanto, algumas culturas não sobrevivem à aplicação deste produto. Deste modo, culturas contendo este gene poderiam tornar-se resistentes ao herbicida, facilitando assim o controle das ervas.
-                     Gene que codifica uma proteína de alto valor nutricional, presente na castanha-do-pará. Este gene poderia ser usado para aumentar o valor nutricional de culturas importantes como feijão e soja.
-                     Genes bacterianos que codificam proteínas com propriedades tóxicas para insetos. Os insetos que se alimentassem de plantas expressando este gene morreriam ou se desenvolveriam com menor eficiência, levando ao seu controle na cultura.



TRANSFERÊNCIA DOS GENES DE INTERESSE:
A transferência dos genes se dá diretamente na célula vegetal, sendo o processo mais utilizado (especialmente para o caso de monocotiledôneas), ou através de agrobactérias. A transferência é alcançada por um dos métodos seguintes:

A-) Eletroporação de protoplastos e células vegetais: Protoplastos são células vegetais, desprovidas de parede celular. Para a transformação, são incubados em soluções que contêm os genes a serem transferidos e, em seguida, um choque elétrico de alta voltagem é aplicado por curtíssimo tempo. O choque causa uma alteração da membrana celular, o que permite a penetração e eventual integração dos genes no genoma.

B-) Biobalística: Técnica introduzida no início da década de oitenta. Baseia-se na utilização de microprojéteis de ouro ou tungstênio cobertos com os genes de interesse. Os microprojéteis são acelerados com pólvora ou gás em direção aos alvos que, neste caso, são os tecidos vegetais. Os genes entram nas células junto com o projétil de maneira não-letal, localizando-se aleatoriamente nas organelas celulares. Em seguida, o DNA é dissociado das micropartículas pela ação do líquido celular, ocorrendo o processo de integração do gene exógeno no genoma do organismo a ser modificado. A velocidade alcançada pelos microprojéteis atinge cerca de 1500 Km/h.
Uma das vantagens do sistema é que este permite a introdução e expressão gênica em qualquer tipo de célula. Assim, foi permitida a transformação in situ de células diferenciadas sem necessidade de regeneração. Outra importante vantagem está na possibilidade de obtenção de plantas transgênicas através da transformação de células-mãe do meristema apical. A técnica de biobalística mostrou-se bastante eficiente, pois as micropartículas conseguem atingir as três camadas do meristema apical.

REGENERAÇÃO DAS PLANTAS A PARTIR DAS CÉLULAS  TRANSFORMADAS:
Uma vez inserido o gene na célula vegetal, por um dos métodos mencionados acima, esta célula ou grupos delas são estimuladas a gerar uma planta transformada.
A transformação de uma célula vegetal é um tipo de manipulação genética que atende ao mesmo princípio da transformação de microrganismos, estabelecido pela primeira vez em 1973, quando Stanley e Cohen, em São Francisco, introduziram o gene proveniente de uma rã em uma bactéria. No entanto, há diferenças conceituais entre a situação com microrganismos e com plantas: nos primeiros, os objetivos finais são mudanças operadas no nível celular, enquanto que em eucariotos superiores, como plantas e animais, as mudanças obtidas no nível celular não são significativas, a não ser que possam ser transferidas para todas as células do organismo. Ou seja, o domínio das técnicas de regeneração de plantas inteiras a partir de uma única célula é condição sine qua non na biotecnologia aplicada para a agricultura. E como cada espécie de planta tem diferentes exigências hormonais, nutricionais e ambientais para a regeneração, esta etapa ainda representa o maior gargalo na criação de plantas transgênicas, embora esta técnica já esteja estabelecida para inúmeras plantas de interesse econômico.

III. ANIMAIS TRANSGÊNICOS

         A manipulação transgênica em animais é uma das questões mais controversas dentro da comunidade científica. A tecnologia pode ser usada para criar animais de fazenda mais produtivos, transformá-lo em “fábrica de remédios” ou desenvolver modelos animais em laboratório para estudo de doenças humanas.
         Em resumo, um transgene é um fragmento de DNA, em geral a seqüência completa de um gene, artificialmente introduzido no genoma de outro organismo.
         Para obter um organismo transgênico, primeiro o gene de interesse é identificado e isolado (clonagem gênica). Depois, é preciso montar o transgene, porque nem todo gene é expresso (levando a célula a produzir proteína) em todos os tecidos. Só os glóbulos vermelhos do sangue, por exemplo, expressam a hemoglobina, proteína que transporta o oxigênio aos tecidos. Além disso, a expressão dos genes em cada célula varia de acordo com seu estado funcional.

Montagem de um transgene (desenvolvimento de camundongos transgênicos)
A expressão gênica depende de uma intrincada rede de controle baseada, entre outras coisas, no reconhecimento de seqüências de DNA denominadas “promotores”. A presença de certo promotor junto ao gene dirige sua expressão para determinado tipo de célula. Como os promotores não codificam proteínas, são alvos preferenciais para manipulação.
É possível usar enzimas de restrição para cortar o DNA em locais específicos e também, “emendar” fragmentos de DNA com outras enzimas. Isso levou à idéia de ligar um promotor de função bem conhecida a um transgene. Em tese, um promotor que coordene a expressão do gene de uma proteína da pele pode induzir a expressão de qualquer transgene na pele. Esse é o truque usado para dirigir a expressão de um transgene para determinadas células de um camundongo.
Preparado o conjunto promotor-transgene, o passo seguinte é injetá-lo em pró-núcleos de embriões. Estes são transferidos para o útero de fêmeas receptivas (em estado de falsa-prenhez, induzido pelo cruzamento com machos vasectomizados). Os filhotes nascem em 20 dias, mas ainda é necessário examinar o DNA para confirmar se tem o transgene e selecionar os positivos (transgênicos). Por último, a proteína associada ao transgene é identificada nos filhotes e seu nível de expressão é medido em células específicas.
Uma linhagem de camundongos transgênicos é com freqüência uma ferramenta poderosa para o estudo in vivo de processos biológicos. Podem-se reproduzir doenças humanas (câncer, diabetes, imunodeficiências e outras) ou alterar vias metabólicas específicas e avaliar em detalhes a atuação celular. Esses animais permitiriam grandes avanços em áreas como imunologia, neurologia, biologia celular e outras.
Embora seja um grande avanço tecnológico, a geração de animais transgênicos tem limitações. Por ser aleatória, a integração do transgene ao DNA pode resultar na mutação de outro gene (e não do gene alvo). Também há variações no número de cópias integradas e no nível de expressão do transgene, ou seja, na quantidade produzida da proteína correspondente. Além disso, como o gene-alvo continua intacto, não se sabe a priori como sua expressão será afetada pelo transgene. Isso exige a geração de várias linhagens independentes de animais com o mesmo transgene, para comparar o efeito no organismo de diferentes doses da proteína em estudo.

Transgênicos e ética

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Transgênicos e ética: a ameaça à imparcialidade científica
Transgênicos e ética: a ameaça à imparcialidade científica
Pablo
Rubén Mariconda
Maurício
de Carvalho Ramos
Os transgênicos: naturais ou artificiais?
Organismos geneticamente modificados (OGM), mais conhecidos como transgênicos,
são artefatos tecnológicos. Boa parte dos problemas que discutiremos neste ensaio gira
em torno desta difícil distinção entre esses seres artificiais e os chamados seres naturais.
A tradição filosófica ocidental legou, principalmente a partir de Aristóteles, um
critério para distinguir estas duas modalidades de seres. De forma simplificada, o critério
é aplicado essencialmente a sua origem ou forma de produção: são naturais os seres
que trazem em si mesmos a causa de sua origem e de seu desenvolvimento (ou, em
termos aristotélicos, a causa de sua mudança, o que inclui a geração e a corrupção, o
nascimento e a morte) e são artificiais aqueles cuja existência depende da ação humana.
Essa distinção pode não causar maior estranheza ao homem contemporâneo.
Simplificada, ela reduz-se facilmente à crença julgada óbvia pelo senso comum de que
artificial é “aquilo que o homem faz” e natural é “aquilo que a natureza faz”. Mas essa
familiaridade logo desaparece quando notamos que a distinção tinha, em sua origem,
um fundamento
de certos seres naturais –
de aplicação dessa distinção mais familiar ao cientista e ao homem informado é
aquela que fundamentou a separação de substâncias orgânicas e inorgânicas presente
na química até o século XIX: as substâncias orgânicas, por sua própria natureza, somente
poderiam ser produzidas pelos seres vivos e
Tal crença emergiu historicamente do
das ciências da vida do século XVIII. Entre outras teses, o vitalismo postulou que os
seres vivos eram compostos por uma substância vital irredutível às substâncias físicas
ordinárias. Tal irredutibilidade tornava impensável a produção e muito restrita a modificação
artificial dos seres vivos. Nesse quadro, a origem da vida deveria contar com
uma fonte sobrenatural de substância ou força vital que, transmitida pela reprodução,
seria a causa exclusiva da vida. A esterilidade dos híbridos, por exemplo, era entendida
ontológico: por princípio, os seres naturais – ou pelo menos certas propriedadesnão podem ser produzidos pelo homem. Uma formanunca seriam sintetizadas em laboratório.vitalismo, concepção que dominou parte
scientiæ
zudia, Vol. 1, No. 2, 2003, p. 245-61
notas e críticas
246
Pablo Rubén Mariconda & Maurício de Carvalho Ramos
como um mecanismo natural para a manutenção da pureza das espécies divinamente
criadas diante dos desvios causados pela intervenção humana na produção de organismos
híbridos.
A ciência posterior pôs em questão a adequação dessas e de crenças similares e,
hoje, é muito difícil encontrar exemplos de seres naturais, vivos ou brutos, que não
poderiam
espetaculares produtos da biotecnologia são responsáveis por boa parte da atual
sensação de onipotência do homem decorrente de seu crescente domínio tecnológico.
Os transgênicos constituem um ótimo exemplo disso: pode-se produzir artificialmente
e com grande rapidez, uma diversidade de organismos que vai além (
todas as barreiras genéticas e reprodutivas com as quais a evolução delimitou as
espécies. O homem começa a sentir-se capaz não apenas de copiar os processos naturais
de especiação, mas de usá-los de modo
a considerar como contribuições originais e melhoradas da biodiversidade natural.
Mais do que isso, a originalidade dos novos artefatos biotecnológicos é incorporada à
categoria de invenção e, desse modo, passa a ser protegida, como outras invenções,
por direitos de propriedade intelectual. Mas esta modalidade de direitos individuais
de propriedade acaba por transferir o conhecimento da esfera pública para a esfera
privada. Vejamos brevemente o que está em jogo neste processo de mudança categorial.
Quando a pesquisa científica é regulada por suas regras internas, a invenção é
associada a um direito de propriedade cuja função, pelo menos idealmente, é garantir
o reconhecimento da criatividade e da originalidade do cientista. Tal reconhecimento
traduz-se em vantagens profissionais, acadêmicas e pessoais relacionadas ao destaque
e à centralidade do pesquisador no interior da comunidade científica. Espera-se, no
final, que tais vantagens sirvam de estímulo para o desenvolvimento da criatividade e
da originalidade de toda essa comunidade. Mas a concretização disso tudo só é possível
com a
e ficam à disposição de
validade dessas descobertas. Em síntese, quando a proteção da propriedade intelectual
é
sustententados pela tese da imparcialidade), ela não apenas é inteiramente
compatível com a publicidade do conhecimento como também é
existe um sigilo
após a mesma. Quando a figura das patentes entra no processo, tudo isso se modifica.
Primeiramente, as patentes são expressões da propriedade intelectual garantidas no
plano do
códigos metodológicos e epistemológicos que regulam a atividade científica, mas pelos
códigos jurídicos que regulam a atividade comercial e industrial. Como decorrên
em princípio também ser produzidos artificialmente. Acreditamos que ostrans) de praticamentecriativo na produção de novas espécies, que passapublicidade da invenção: as descobertas são publicadas nos periódicos científicosqualquer pessoa cientificamente competente para testar aainda regulada pelos códigos da pesquisa científica (que, como veremos, estão centralmenteexigida por ela – certamenteantes que a publicação seja feita, mas que perde todo o sentidodireito e, assim, sua legitimidade não é mais primordialmente garantida pelos247
Transgênicos e ética: a ameaça à imparcialidade científica
cia de tal mudança, o conhecimento original e inventivo que, para ser protegido, necessitava
ser público, passa, para tanto, a ser necessariamente
que permitem a produção dos artefatos tecnológicos são transformados em “informação
comercial confidencial” e em “segredo industrial” e, com isso, tais processos deslizam
do âmbito da ciência para o âmbito dos
patentes a criatividade e as inovações científicas são apropriadas pelo capitalismo, tornando-
se mercadorias que, de artefatos potencialmente úteis para toda a humanidade
– bens sociais –, passam a ser propriedade de alguns poucos humanos ligados entre si
nas grandes corporações.
Um organismo torna-se transgênico quando recebe em seu genoma uma seqüência
de DNA que foi previamente manipulada em laboratório por técnicas especiais.
Tais técnicas incluem o corte e a ligação de fragmentos de DNA com grande precisão.
Para tanto, são utilizadas
seqüência de pares de bases nitrogenadas e cortar o DNA neste sítio de reconhecimento,
e
técnica, desenvolvida por S. Cohen e colaboradores em 1973, pode ser considerada como
fundadora da tecnologia do DNA recombinante ou da engenharia genética. A transferência
do DNA do organismo doador para o receptor é feita indiretamente ou diretamente.
No primeiro caso, utilizam-se organismos “vetores”, como a bactéria
sigiloso. Os processosnegócios. Em suma, sob o instituto dasenzimas de restrição, que podem reconhecer uma pequenaenzimas de ligação ou ligases, capazes de ligar dois fragmentos de DNA. Esta
Agrobacterium tumefaciens
genes para o genoma de certas plantas, provocando com isso patologias tumorais. Modificado
pela engenharia genética, o DNA da bactéria – seu plasmídeo – pode transformar-
se em veículo para a transferência de fragmentos de DNA de outras espécies, sobretudo
aqueles de interesse para o homem. Já na transferência direta são utilizados
métodos físicos e químicos que permitem romper as membranas celular e nuclear,
levando o DNA do doador diretamente até o DNA do receptor. São exemplos de técnicas
desse tipo a
a
na membrana nuclear por onde passaria o DNA do doador) e a utilização de
substâncias químicas, como o etilenoglicol, capazes de facilitar a entrada do DNA no
núcleo e sua associação ao DNA do receptor.
As perspectivas desta técnica são realmente fantásticas: é possível produzir uma
diversidade de organismos vivos que seria impensável pelos meios naturais ou extremamente
demorada e custosa pelo melhoramento genético convencional. Esta ação
tecnológica humana informada pelas ciências naturais (e veremos o quão significativa
é essa associação) consegue interferir não apenas no plano estrutural e funcional da
vida mas, também, naquele que, dentro da abandonada referência vitalista, seria
inviolável: o gerativo ou genético da vida.
. Este microorganismo transfere naturalmente parte de seusbiobalística (aplicação de microprojéteis envoltos por DNA em alta velocidade),eletroporação (aplicação de descargas elétricas na célula capaz de criar poros
248
Pablo Rubén Mariconda & Maurício de Carvalho Ramos
Parece, então, muito claro que os transgênicos são objetos
que são artefatos produzidos através de uma ação humana que intervém de modo
hiper-tecnológicos, jáprofundo
no objeto natural. Considerando a complexidade material dos sistemas biológicos
comparativamente à dos sistemas físicos, diríamos que as intervenções na bioquímica
do núcleo celular são tecnologicamente bem mais profundas do que as intervenções na
física do núcleo atômico. Pode-se dizer que hoje em dia praticamente nenhum plano
natural do ser vivo – somático ou genético – fica impenetrável às modificações dirigidas
pelo homem. Por exemplo, a soja Round-up da Monsanto, produzida para resistir ao
herbicida à base de glifosato, contém uma combinação de genomas oriunda, além da
própria soja, de quatro organismos distintos: do vírus do mosaico da couve-flor, da
petúnia, da
Agrobacterium CP4 e da Agrobacterium tumefasciens. Quando inserimos diretamente
in vitro
por cima, por assim dizer, de toda interação que formas híbridas produzidas
vivo
espécies também modificados pelo homem. A seleção natural fica completamente
inoperante, enquanto a seleção artificial é aplicada diretamente ao plano biomolecular.
O que se escolhe e se isola não são mais os traços fenotípicos dos organismos, como no
melhoramento convencional, mas selecionam-se diretamente os genes, aqueles que,
idealmente, são considerados úteis para as necessidades humanas – ou, como acontece
de fato, os que contemplam os interesses de grupos restritos de humanos.
Expliquemos um pouco melhor isto. Comparando a transgenia com outras técnicas
de modificação genética, percebe-se que a primeira permite conhecer com precisão
muito maior a natureza do material genético que será introduzido no organismo
a ser modificado. Mesmo com técnicas cientificamente algo sofisticadas, como a
indução de mutagênese
envolvida é bem menor. A grande precisão da transgenia é obtida graças às técnicas de
engenharia genética desenvolvidas por um grupo relativamente pequeno de pesquisadores
comparativamente às várias gerações de pessoas (cientistas e não-cientistas) que
contribuíram para o melhoramento vegetal e animal “convencional” ao longo dos séculos.
Deste modo, a tecnociência gerou grupos restritos de indivíduos ligados a projetos
privados de pesquisa, cuja precisão de seus resultados – produtos e processos –
também é interpretada como privada e recebem proteção legal das patentes. A propriedade
difusa, pública e coletiva associada ao conhecimento dos povos e das comunidades
em geral e mesmo da comunidade científica em particular começa a competir de
modo perigoso com a propriedade privada associada a um conhecimento tecnológico
avançado cujo desenvolvimento dependerá cada vez mais de grandes investimentos que
só existirão com a garantia de retorno ainda maior. Quando os produtos de uso privado
são organismos vivos, como os transgênicos, essas relações entre capital e conheci
genes de uma espécie nos cromossomos de uma outra espécie passamosinteriam com o ambiente e com outras espécies – mesmo que se trate de ambientes ein vivo por radiação ou por substâncias químicas, a precisão249
Transgênicos e ética: a ameaça à imparcialidade científica
mento se intensificam e se tornam mais preocupantes, como veremos na seqüência de
nosso argumento.
É evidente que os organismos modificados que o homem produziu (desde a invenção,
no início da civilização, da agricultura até o desenvolvimento de técnicas mais complexas
como, por exemplo, a farmacêutica), isolando variedades naturais por meio de
cruzamentos seletivos até aqueles que atualmente começamos a obter por hibridização
direta do DNA, são produtos artificiais. Todos podem ser considerados organismos
geneticamente modificados, apesar do termo (OGM) ser aplicado apenas ao último – a
rigor, a idéia de evolução orgânica exige que todo organismo, natural ou artificial, seja
geneticamente modificável. Mas as diferenças existentes entre estas formas de intervenção
não permitem dizer que elas sejam, para todos os fins e em todos os sentidos,
igualmente artificiais
transgênicos, enquanto produtos artificiais, serem
produzidos, desde os primórdios da civilização, com as mais diversas técnicas.
Por que, então, tanto temor e desconfiança com os transgênicos? Pensamos que este
uso trivial do conceito de artefato ou de produto artificial pode ocultar problemas éticos
que nada possuem de trivial. Para deixar mais claro do que estamos falando, voltemos
novamente à distinção artificial-natural para que percebamos como se organiza
um outro aspecto do argumento a favor do uso e do patenteamento dos transgênicos.
Como dissemos anteriormente, a alegação de que os transgênicos são novidades
produzidas pelo homem frente à biodiversidade natural sustenta a requisição de patentes
sobre os mesmos. Quando o que está em questão é a defesa dos direitos depropriedade
intelectual, os transgênicos são indiscutivelmente objetos artificiais. Mas quando
estes organismos começaram a sair do ambiente controlado dos laboratórios e das indústrias
para, com a agricultura, ganhar espaços mais livres sobre o planeta, logo pensou-
se nos riscos implicados para o ambiente e para as espécies e raças naturais ou
geneticamente já modificadas pelos métodos convencionais. Porém, curiosamente, a
defesa da segurança dos transgênicos diante de tais temores é feita enfraquecendo ou
mesmo negando a artificialidade de tais organismos que, antes, eram ditos completamente
novos: os genes das várias espécies artificialmente incluídos no genoma
transgênico são objetos naturais muito antigos e, portanto, já testados e aprovados pelos
mecanismos naturais de evolução (pode-se mesmo dar “um passo atrás” na redução
e afirmar que inclusive os genes sintetizados artificialmente seriam constituídos por
moléculas naturalmente seguras). Revelando a operação clara de uma concepção reducionista
da vida – discutida com mais detalhe adiante – considera-se secundário se
os genes se reproduzem no aparelho bioquímico desta ou daquela espécie. Tratando os
genes como unidades autônomas naturais pode-se nivelar, quando o interesse assim
exigir, todas as formas de intervenção artificial sobre a genética dos organismos. Pode
. Este nivelamento comparece nos argumentos que consideram osa mesma coisa que os tantos organismos250
Pablo Rubén Mariconda & Maurício de Carvalho Ramos
mos, por fim, verificar uma última exploração valorativa parcial dos conceitos de natural
e artificial aplicada aos transgênicos. Se pelo mecanismo natural de auto-reprodução
os genes herdam a segurança que a evolução lhes conferiu, por que, então, não considerar
as próximas gerações de organismos transgênicos férteis como integralmente
naturais? A resposta é simples: eles não mais herdariam a característica “ser propriedade
privada” que garante o patenteamento, que se aplicaria então apenas à geração
parental (P) modificada e não aos seus descendentes (F1, F2 etc.). Não poderiam ser
cobrados
mas apenas das “ matrizes”, como se diz no melhoramento genético convencional.
Parte da análise anterior foi desenvolvida por Vandana Shiva em várias de suas
obras, especialmente no livro
outras coisas, os aspectos políticos e econômicos do uso dos transgênicos. Como ela,
também percebemos o claro uso retórico da ambigüidade implícita na distinção natural-
artificial. Podemos acrescentar aqui à análise de Shiva que a tecnociência em geral
e a biotecnologia em particular esvaziaram de sentido a base ontológica aludida no início
deste ensaio que na antiguidade dava sentido às categorias natural-artificial. Mas
nossas conquistas tecnológicas e científicas ainda não foram suficientes para fixar uma
cosmovisão que as banisse completamente: elas ainda permanecem firmes no discurso
cotidiano. Estas duas categorias de seres aparecem significativamente entre as verdades
do senso comum, de modo que parece absurdo dizer que “ tudo é natural” ou que
“ tudo é artificial” ou, talvez mais ainda, que não possamos saber ao certo quando algo
é natural ou artificial – a distinção pode mais confundir do que explicar. Não estamos
falando de nenhuma novidade: o par artificial-natural é mais um caso de categorias
que, sólidas em certos domínios cognitivos menos analíticos, revelam-se confusas
quando analisadas com mais rigor. É justamente esta confusão – que estamos longe de
resolver com rigor – que está na raiz das explorações retóricas que anteriormente apontamos.
Vale a pena, pois, nela insistir ainda mais um pouco.
A possibilidade de modificar tão profundamente e com tanta rapidez o ser vivo,
como acontece com os transgênicos, é garantida justamente porque tal modificação
está orientada por um conhecimento objetivo e científico que restringe as propriedades
relevantes dos objetos. É porque a modificação é feita com base no que se conhece
naturalmente do objeto que se pode modificá-lo potencialmente em qualquer direção.
Mas há outras intervenções técnicas do homem orientadas por conhecimento não científico
ou por conhecimento científico diverso daquele que se estabeleceu na tradição
ocidental pela ciência moderna. Pensemos, por exemplo, nos vários usos de produtos
naturais feitos pelos povos indígenas que, muitas vezes, são orientados por uma concepção
mágico-vitalista do mundo e da natureza. É possível identificar uma eficácia
relativa de técnicas desse tipo – os estudos sobre etnociências oferecem abundantes
royalties de toda uma linhagem de descendência (potencialmente infinita)Biopirataria, no qual explora em profundidade, entre
251
Transgênicos e ética: a ameaça à imparcialidade científica
exemplos. Generalizando a questão, essa intervenção mágica da natureza pode ser interpretada
como possuindo a mesma
tecnológica informada pela ciência moderna: é um certo
visado tanto pelo mago quanto pelo cientista (certamente estamos conscientes de que
nessa ampla generalização muitos contra-exemplos poderiam ser identificados).
Comparações desse tipo podem revelar um aspecto importante da natureza dos
artefatos: a produção do artefato é determinada tanto pelo
quanto pelas
(tecnológico ou não) é um objeto
os artefatos são considerados especiais justamente porque “carregam” a marca das escolhas
e das intenções humanas (se há escolhas intencionais nas ações de seres nãohumanos
é uma questão que não trataremos aqui). Esta particularidade dos artefatos é
de há muito investigada pelas ciências humanas e culturais, mas parece que os resultados
já obtidos são pouco familiares aos cientistas da natureza. Insistamos, então, um
pouco mais nesse ponto.
Os artefatos podem, então, ser definidos por sua teleologia. Não apenas todo artefato
é teleológico como, também, a “natureza” dessa teleologia pode servir para distinguir
diferentes tipos de artefato. Em todos eles identifica-se alguma escolha ou intenção
em sua produção e em sua estrutura. Percebe-se um claro uso ou utilidade
associado a uma finalidade, sendo ambos determinados por necessidades e desejos
humanos. Este uso ou utilidade, por sua vez, está associado a
tais valores são
intenção ou a mesma finalidade que possui a intervençãodomínio da natureza que étipo de conhecimento aplicadofinalidades que com ele se quer atingir. Em uma palavra, todo artefatoteleológico. Comparativamente aos objetos naturais,valores subjetivos. Por fim,qualidades ou atributos qualitativos dos artefatos que podem ser caracterizados
independentemente de suas propriedades físicas, materiais e quantitativas
suma, um artefato é um objeto físico que é determinado por suas propriedades materiais
. Em
e
O aspecto físico e material de um artefato analisado à luz de sua finalidade remete
à eficácia com a qual a finalidade é atingida – e, conseqüentemente, aos desejos e
interesses que são satisfeitos. A produção de um artefato eficaz é a materialização de
uma finalidade. Pode-se mostrar que certas finalidades são atingidas apenas pela utilização
de certos conhecimentos acerca do objeto. Mas, também, é possível que outras
finalidades sejam atingidas aplicando-se mais de um tipo de conhecimento, até mesmo
conhecimentos contraditórios entre si.
Tomemos um exemplo que nos será particularmente útil, como veremos mais
adiante, para compreender certos componentes éticos ligados ao uso dos transgênicos
na agricultura. A cura para uma mesma doença pode ser obtida por medicamentos (artefatos)
homeopáticos ou alopáticos, cada um deles construído segundo conhecimentos
sobre a saúde e a doença opostos em muitos aspectos. Sabemos que há uma certa
disputa sobre a eficácia terapêutica da homeopatia comparativamente à da alopatia e,
por suas qualidades valorativas ou culturais.
252
Pablo Rubén Mariconda & Maurício de Carvalho Ramos
neste caso, o exemplo aproxima-se do que dissemos antes, brevemente, sobre o
vitalismo: a homeopatia possui ligações com esta concepção dos seres vivos que já foi
“oficialmente” abandonada pela biologia; já a alopatia funda-se em concepções materialistas
dos seres vivos, em um conhecimento mais natural e “progressivo” à luz do
que se entende hoje como o conhecimento mais confiável. Cremos que a maioria dos
profissionais da saúde de hoje estaria de acordo com tais afirmações. Tudo o que dissemos
aponta, em última análise, para
objeto em função do que se pensa conhecer de suas propriedades materiais (meio) aplicado
à satisfação de necessidades humanas (fins). Com isso, do terreno biotecnológico
deslizamos para o campo da ética.
a relação entre fins e meios: a caracterização do
Ética conseqüencialista e ética deontológica
No contexto da análise precedente, podemos partir do seguinte ponto: pode-se julgar
as decisões por utilizar este ou aquele conhecimento para atingir este ou aquele fim em
função da eficácia em atingi-lo. Será
melhor a escolha que garanta a maior eficácia. Este
melhor
Há, portanto, uma certa ética que diz que as decisões mais acertadas são aquelas que
garantem maior eficácia em atingir finalidades (se a eficácia da alopatia for
comprovadamente maior do que a da homeopatia para a finalidade de cura de uma dada
moléstia, então será melhor, mais racional e mais correto utilizar a primeira do que a
segunda). Mas nada disso serve para julgar a escolha da finalidade em si mesma. Uma
vez a escolha feita, será mais ético seguir o caminho mais eficaz, mas que critério permite
julgar valorativamente duas finalidades distintas? No nosso exemplo anterior, é
evidente que a cura de uma doença será intuitivamente sempre considerada uma finalidade
correta. Mas se for comprovado, em certos casos, que o crime é mais eficaz que
o trabalho honesto para fins de enriquecimento... Percebe-se facilmente o problema
envolvido. Tanto os meios quanto os fins são passíveis de julgamento e, no caso dos
artefatos, ambos estarão presentes em sua determinação.
Podemos nos orientar nessa difícil questão utilizando uma categorização geral
da ética em duas grandes modalidades. Há uma ética deontológica ou material que
procura por um fundamento para as ações éticas. Tal fundamento foi, tradicionalmente,
procurado na natureza ou na divindade (ou em ambas combinadamente) e, com ele,
busca-se erigir um conjunto de normas universais para os julgamentos morais. A moral
cristã é um bom exemplo de ética deontológica: dado o caráter sagrado da vida
humana em virtude de sua origem sobrenatural, o aborto sempre será considerado
moralmente errado, não importam as circunstâncias nas quais ele seja praticado.
, que pode também ser dito mais racional, pode mostrar-se também mais correto.
253
Transgênicos e ética: a ameaça à imparcialidade científica
A outra modalidade é dita uma ética conseqüencialista. Ela não parte de regras morais,
mas de objetivos. A qualidade ética de uma ação está ligada à eficácia com a qual o objetivo
é atingido. Uma vez que as conseqüências de uma ação variam segundo as
circunstâncias, uma mesma ação poderá ser julgada boa ou má em função dessas circunstâncias.
Mas isso não significa, como se pode incorretamente concluir, que tal
orientação ética cai necessariamente em um relativismo ingênuo. Aqui também a ação
é orientada por princípios universais, como no
de grande influência no pensamento moderno. De modo geral, para o
utilitarista uma ação será correta quando ela puder aumentar ou, pelo menos, manter a
felicidade daqueles que são atingidos por essa ação. Opera aqui um forte princípio de
igualdade: todos os humanos são iguais no que se refere à satisfação de seus interesses
e de suas necessidades. Não há princípios
interesses em detrimento de outros.
Essa divisão não está isenta de dificuldades (pode-se objetar, por exemplo, que a
máxima felicidade seja um valor naturalizado
melhor a questão anterior acerca da eficácia na produção de artefatos. Em uma
matriz deontológica, a eficácia de um artefato não é suficiente para julgar o conteúdo
ético da ação que o produziu. Se o artefato é mais ou menos útil para satisfazer as
necessidades humanas é secundário; o que importa é se esses desejos, necessidades e
finalidades ferem ou não o conjunto de normas morais previamente estabelecido.
Mesmo que o crime satisfaça desejos humanos mais eficazmente que o trabalho honesto,
ele será errado por ferir as normas teológicas cristãs “não matarás”, “não roubarás”
etc., cuja validade está garantida
revelado. Já na ética conseqüencialista, o valor moral da ação produtora de
artefatos será tanto maior quanto
satisfizer ou quanto maior for a felicidade que promove
aqui é também julgado errado, pois claramente satisfaz um reduzido grupo de pessoas
ao preço do sofrimento de muitas outras (ele diminui a felicidade humana em geral).
No caso dos vários modos de intervenção dos povos indígenas ou mesmo de técnicas
comuns no passado e hoje abandonadas, pode-se fazer o mesmo raciocínio. Concepções
mágico-vitalistas das coisas costumam ser fortemente carregadas de significados
humanos particulares, de modo que os artefatos construídos a partir delas
respeitam valores subjetivos aceitos universalmente dentro de uma comunidade. Mas
também pode-se interpretar estes exemplos a partir de seus valores conseqüencialistas:
para que o uso de uma técnica perdure no tempo ela deve possuir alguma eficácia, deve
satisfazer necessidades concretas dos humanos – ou, pelo menos, deve-se atingir algum
equilíbrio entre valores simbólicos, portadores de significados humanos subjetivos,
e valores funcionais, ligados à utilidade para a satisfação de necessidades empiri
utilitarismo, uma doutrina ética conseqüencialistaa priori que justifiquem privilegiar certosa priori), mas ela nos permite compreendera priori por se tratar de conhecimento sobrenaturalmais útil ele for, quanto mais necessidades humanasaos humanos em geral. O crime254
Pablo Rubén Mariconda & Maurício de Carvalho Ramos
camente mais objetivas. Apenas a título indicativo, a distinção utilizada na antropologia
entre
contexto, pois serve de base para uma teoria histórica da técnica que interpreta o desenvolvimento
da atividade técnica em função do equilíbrio entre os dois tipos de eficácia:
a necessidade de aumentar a eficácia objetiva de uma técnica promoveria revisões
no quadro das normas éticas sociais que as regulam e o fortalecimento ou o
surgimento de novos valores neste domínio levaria a novas restrições e controles nos
aspectos funcionais das técnicas.
Podemos, por fim, aplicar a discussão anterior ao exemplo da homeopatia confrontada
com a alopatia, mencionado acima. Ele nos conduzirá, agora, diretamente ao
problema do uso dos transgênicos. Deontologicamente, será mais ético o procedimento
terapêutico (a ação) ou mesmo o medicamento (o artefato que satisfaz a finalidade da
ação) cuja utilização se apóia em um conhecimento médico (a natureza da saúde, da
doença, da fisiologia, da vida etc.) ao qual se vinculam certos valores que integram um
conjunto de normas aceitas previamente como eticamente válidas. Podemos dizer que
a medicina homeopática age orientada por perspectivas de valor sustentadas por uma
ontologia vitalista: postulando a irredutibilidade dos fenômenos biológicos aos fenômenos
físicos, tal ontologia confere um caráter
assim dizer, maior dignidade. As substâncias, forças ou princípios vitais são atributos
qualitativos que, existindo independentemente das propriedades quantitativas, são
afins aos valores subjetivos. Talvez sejam justamente tais valores que sustentem em
boa medida a terapêutica homeopática diante das críticas relativas à sua eficácia objetiva.
Mas ela também exibe valores utilitaristas já que, exibindo em algum grau tal
eficácia, continua presente como técnica médica contemporânea. A alopatia, por sua
vez, aponta para uma perspectiva ética diametralmente oposta. Informada por uma
concepção materialista e
médicos podem ser inteiramente explicados em termos físico-químicos; ela teria um
valor muito particular: ela adere integralmente aos valores utilitaristas e reclama a eficácia
(objetiva) máxima para seus artefatos, pois entende que,
artefatos, ao contrário da homeopatia, informada por um conhecimento
de valores humanos subjetivos
Assim, pode-se dizer, em geral, que nenhum conjunto de normas morais
eficácia simbólica e eficácia objetiva mostra-se particularmente operante nestesui generis à vida, atribuindo-lhe, porreducionista, segundo a qual todos os fenômenos biológicos eem princípio, produz taisimparcial, livre(culturais, sociais etc.).a priori
(ética deontológica) seria tão valioso a ponto de restringir o valor moral aliado ao progresso
do conhecimento material da natureza e de seu conseqüente refinamento nas
aplicações tecnológicas (ética conseqüencialista). Voltaremos, na conclusão, a este
ponto para mostrar como a pesquisa biotecnológica enfrenta dificuldades diante desse
quadro ético.
255
Transgênicos e ética: a ameaça à imparcialidade científica
A tecnociência e os riscos para a pesquisa científica
Para poder aplicar agora a discussão feita até aqui ao caso dos transgênicos é preciso
esclarecer ainda alguns aspectos centrais da concepção contemporânea de ciência.
A ciência dita moderna nasceu no século XVII, articulando-se em torno da distinção
entre fato e valor; distinção que serviu de base para a concepção de que os juízos científicos
são obtidos independentemente de considerações valorativas ou, de modo geral,
de que a ciência é livre de valores. Essa concepção acabou por impor-se como um
valor das práticas e instituições científicas composta por três componentes:
imparcialidade,
autonomia
e neutralidade. Assim, os procedimentos científicos são tidos como
imparciais
cognitivos, tais como, a adequação empírica, o poder explicativo, a precisão, a simplicidade
etc., sem que nessas decisões se recorra a outros critérios ou valores sociais,
culturais, religiosos, morais etc. Em virtude da imparcialidade e, para assegurá-la, a
ciência deve ser
econômica etc. Isso significa que de acordo com a autonomia as práticas científicas
devem ser conduzidas sem a interferência de fatores externos e, em particular, que
elas devem ser patrocinadas com os recursos necessários pelas várias instituições públicas
ou privadas de fomento de modo que os cientistas possam continuar em seu objetivo
de obter e confirmar o entendimento dos fenômenos em conformidade com a
imparcialidade. Por fim, dado que os resultados científicos são alcançados imparcialmente
pelo uso do método científico e que as decisões científicas são tomadas autonomamente
sem a interferência de fatores externos, pretende-se que, na aplicação, uma
teoria bem estabelecida seja
de todas as perspectivas de valor de modo mais ou menos igual.
É verdade que esses princípios das práticas científicas, com a exceção da imparcialidade,
permaneceram muito mais como
atingido, do que normas efetivamente praticadas. De fato, desde o início, como mostra
o processo da Inquisição Romana contra Galileu, o princípio de imparcialidade do
método científico se mostra impermeável à crítica externa: só são científicas aquelas
teorias imparcialmente estabelecidas. Para o estabelecimento desses juízos de cientificidade
só entram em questão valores cognitivos. O posterior desenvolvimento institucional
da ciência não afetou significativamente a imparcialidade, apesar de ataques
exemplares isolados como o do caso Lysenko, mas foi tornando cada vez mais ideais e
utópicas as teses de autonomia e neutralidade.
Existem razões históricas para isso ligadas ao desenvolvimento econômico e social
do qual a ciência é parte integrante. Logo no início do processo de institucionalização
da ciência, no último quarto do século XVII, com a criação das Academias de ciên
, isto é, a ciência chega a decisões unicamente com base em critérios (valores)autônoma com relação às outras esferas de decisão política, teológica,neutra, ou seja, que ela sirva, em princípio, aos interessesdesiderata, constituintes de um ideal a ser256
Pablo Rubén Mariconda & Maurício de Carvalho Ramos
cia sob os auspícios dos reis da Inglaterra, da França e da Alemanha, e por todo o século
XVIII, o Estado tornou-se o grande patrocinador das ciências sob o preço da perda da
autonomia e da neutralidade das aplicações que se voltaram em grande medida para o
aperfeiçoamento técnico da produção bélica. Na primeira metade do século XIX, o ingresso
da ciência nas universidades, pela institucionalização dos currículos e disciplinas
reconhecidas como científicas, fez antever brevemente a possibilidade da autonomia
e da neutralidade tornarem-se efetivas, mas o avanço do capitalismo industrial,
na segunda metade do século, operou a primeira grande apropriação privada dos artefatos
e dos conhecimentos científicos necessários para sua produção com a implantação
das indústrias químicas, petroquímicas e farmacêuticas. Esse processo se aprofunda
por todo o século XX e resulta, em nossos dias, no avanço do capitalismo globalizado e
suas corporações que, por meio da tecnociência e do instrumento das patentes, apropriam-
se do conhecimento científico (biológico; físico-químico) imparcialmente estabelecido
para satisfazer seus interesses de lucro e de controle das condições de vida e
de sobrevivência (água, alimentos e medicamentos) da humanidade sobre o planeta.
Em uma de suas dimensões, a situação atual aprofunda a tendência já presente na físico-
química do século XIX e primeira metade do século XX, a partir da incorporação
gradativa da biologia a estratégias materialistas e reducionistas.
No artigo publicado neste mesmo número de
em detalhe uma concepção da atividade científica capaz de apreender a estrutura
e a dinâmica da tecnociência em geral e da bioengenharia em particular. Com isso,
Lacey abre a possibilidade de uma análise profunda dos problemas éticos, epistemológicos
e metodológicos da ciência em uma perspectiva que articula valores sociais e
valores cognitivos e que, por isso, mostra onde residem as tensões que impedem a plena
realização do ideal de ciência não-valorativa.
Como mostra Lacey, a atividade científica está constituída basicamente por três
momentos: (1) adoção de uma estratégia; (2) aceitação de teorias; (3) aplicação do conhecimento
científico. O primeiro momento tem importância capital pois a adoção de
uma estratégia permite “restringir os tipos de teorias que podem ser desenvolvidas – e
assim especificar os tipos de possibilidades que podem ser exploradas no curso da investigação
– e selecionar os tipos de dados empíricos aos quais devem adequar-se as
teorias científicas” (Lacey, 2002, p. 499). Sem a adoção de uma estratégia, não há investigação
coerente e sistemática: não sabemos as questões relevantes, não conseguimos
identificar as classes de possibilidades, não conseguimos identificar o tipo de explicação
a ser dado, não sabemos, em suma, quais são os fenômenos que devemos
observar, medir e experimentar ou quais são os procedimentos a empregar. É, portanto,
a estratégia que define os contornos e as metas das pesquisas a serem empreendidas.
Scientiae Studia, Hugh Lacey desenvolve
257
Transgênicos e ética: a ameaça à imparcialidade científica
A ciência moderna visou o domínio da natureza, inventando, por assim dizer, o
controle moderno dos objetos naturais. Para tanto, foram elaboradas, desde o início
com Galileu, Bacon e Descartes, estratégias materialistas, impondo às teorias científicas
restrições quantitativas (matemáticas) com base na idéia reducionista de que todas as
qualidades ditas sensíveis dos objetos naturais podem ser reduzidas a qualidades passíveis
de matematização e mecanização, ou seja, de que todos os fenômenos naturais poderiam
ser explicados mecanicamente em termos da matéria e do movimento. Em pouco
tempo, essa estratégia mecanicista se revelou demasiadamente restritiva, dando lugar
a estratégias materialistas mais adequadas que impuseram restrições às teorias no sentido
de que as coisas pudessem ser representadas em termos de suas estruturas, processos,
interações e leis subjacentes e que suas possibilidades pudessem ser identificadas
em termos do poder que a ordem subjacente tem de gerá-las independentemente
do lugar que elas possam ter na experiência e atividade prática humanas. A tecnociência
contemporânea adota a estratégia materialista da ciência moderna, acrescentando-lhe
uma restrição ulterior de tipo reducionista por meio da exigência de que todas as coisas
possam ser tratadas em termos da fisico-química, de modo que, agora, também os
seres vivos passam a ser considerados como objetos físico-químicos.
De modo geral, portanto, a estratégia materialista-reducionista entenderia o
mundo natural (inorgânico ou orgânico) em termos de suas estruturas, processos, interações
e leis subjacentes e poderia, por isso, transformá-lo artificialmente de modo
mais profundo do que qualquer outra estratégia. Mais ainda, é
de transformação tecnológica informado pela ciência materialista-reducionista que
se poderia garantir a satisfação de necessidades humanas cada vez mais complexas e
sofisticadas dentro do processo histórico da civilização. Por fim, dado que as possibilidades
de aplicação, geradas no interior das estratégias materialistas, são determinadas
independentemente das ligações com os valores sociais e com as possibilidades
humanas e sociais que podem ser efetivadas, ela também garantiria uma
somente com tal poderneutralidade
ética na produção dos artefatos, pois, não estando orientada por nenhuma perspectiva
subjetiva de valor, poderia ser posta a serviço de qualquer uma delas.
O segundo momento, o da aceitação de teorias, é crucial e representa, por assim
dizer, a certificação de cientificidade dos resultados alcançados por pesquisas empreendidas
segundo as estratégias propostas: as teorias científicas são aceitas imparcialmente
com base em métodos e procedimentos universalmente acordados que garantem
a objetividade em princípio do conhecimento obtido ou ainda que ele promove o
entendimento dos fenômenos naturais.
No terceiro momento, com base nas teorias imparcialmente aceitas são desenvolvidos
técnicas e procedimentos tecnológicos que aplicam o conhecimento obtido segundo
a estratégia adotada. Dada a predominância das estratégias materialistas, a apli
258
Pablo Rubén Mariconda & Maurício de Carvalho Ramos
cação favorece, em geral, o controle moderno dos objetos naturais, assentando na premissa
de que tais aplicações são informadas por conhecimento que, sendo imparcialmente
obtido, seria neutro com relação a todas as perspectivas de valor não-cognitivo.
Apresentamos este quadro para pôr em evidência onde residem as tensões
introduzidas pela tecnociência, que representa o estágio atual do desenvolvimento da
ciência moderna. Operando um amálgama cada vez mais profundo entre tecnologia e
ciência, a tecnociência combina a supervalorização do aspecto aplicado do conhecimento
com a desvalorização da pesquisa pura e do conhecimento como um fim em si
mesmo. Essa combinação desbalanceada dos aspectos aplicado e puro da ciência reflete-
se diretamente na interrelação entre os três momentos da atividade científica
acima descritas (seleção de estratégia, escolha de teorias e aplicação de teorias) e as
três teses centrais a eles relacionadas (autonomia, imparcialidade e neutralidade), produzindo
um amálgama de segunda ordem: a escolha da estratégia não é mais feita autonomamente
em função de valores cognitivos que promovem o entendimento dos fenômenos
naturais, mas é, desde o início, dirigida por interesses nos possíveis produtos
resultantes da aplicação. Como, por outro lado, os interesses envolvidos na aplicação
são de grupos restritos e visam a transformação dos produtos tecnológicos em mercadorias,
tampouco há como garantir a neutralidade. Esse amálgama que anula os dois
extremos da dinâmica científica tende a restringir cada vez mais o núcleo teórico da
ciência representado pela imparcialidade.
Conclusão
Tendo em vista a discussão que propusemos neste ensaio, apresentamos como conclusão
geral e central, além das questões mais específicas que exploramos ao longo do
texto, que o patenteamento dos organismos transgênicos não só é eticamente questionável,
mas ameaça o próprio núcleo da atividade científica representado pela tese
de imparcialidade. Pensamos que tal conclusão sustenta-se nos seguintes pontos:
1. Vimos que, de suas origens modernas até hoje, a atividade científico-tecnológica
pretendeu fundar a moralidade de suas ações com vistas ao controle da natureza no
quadro de uma ética conseqüencialista que rejeita valores tradicionais
de uma ética deontológica. Porém, a fidelidade coerente com esse quadro exige a
adesão a um princípio ético universal conseqüencialista-utilitarista de igualdade dos
interesses humanos. Traduzida na aplicação tecnológica do conhecimento científico,
essa exigência transforma-se na tese de neutralidade da ciência e da tecnologia, que as
constrange a atender,
a priori nos moldespor princípio, a todas as perspectivas de valor (social, não-cogntivo).
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Transgênicos e ética: a ameaça à imparcialidade científica
Mas a partir de tudo o que apontamos sobre o uso retórico da distinção naturalartificial
que sustenta em parte a utilização e defende decididamente o patenteamento
de organismos geneticamente modificados, podemos concluir que a tecnociência praticada
no âmbito mais avançado da biotecnologia rompe com esse pano de fundo ético
com o qual pretendeu, até agora, sustentar a moralidade de suas ações: agregando a
qualidade “ser propriedade privada”, os transgênicos tornam-se artefatos pseudoconseqüencialistas,
pois se colocam retoricamente em nome das necessidades humanas,
mas são aproveitados primordialmente para o benefício de grupos restritos.
O patenteamento dos transgênicos é a prova maior de que eles estão ligados a interesses
particulares e ferem o princípio utilitarista de igual consideração dos interesses
humanos.
2. Caso se pretenda defender o valor humanitário e universal dos transgênicos (que
eles acabarão com a fome do mundo, por exemplo), mesmo aceitando os inconvenientes
das patentes como conseqüências inevitáveis da dinâmica econômica atual (algo
como um “mal necessário” ou que provisoriamente se deva aceitar para atingir no futuro
um bem maior), podemos contra-argumentar da seguinte maneira: (a) as alternativas
aos transgênicos, como, por exemplo, a agroecologia, poderiam estar informadas
por perspectivas de valor social (não-cognitivo) presente em um número maior de
pessoas – e, portanto, de saída, mais fieis à universalidade de interesses; (b) a produção
de transgênicos depende, em boa parte, da ação de um reduzido grupo de pessoas,
ligadas a empresas privadas que possuem interesses particulares bem distantes dos
interesses da humanidade e em certo sentido, como vimos, distantes até dos objetivos
da própria ciência. Na agricultura convencional, na agroecologia e em outras alternativas,
os artefatos e os procedimentos técnicos estão mais informados culturalmente,
possuem maior diversidade valorativa e são mais ricos para o processo civilizatório.
A responsabilidade pelos erros e acertos dessas técnicas serão atribuídas a grupos maiores
de pessoas, mais integrados socialmente entre si e com outros grupos. Os artefatos
transgênicos das multinacionais afetam de modo mais profundo as comunidades e a
sociedade, mas são culturalmente muito mais pobres. É o que Shiva chama de diminuição
da diversidade intelectual e cultural; (c) dizer que os transgênicos são artefatos
mais científicos do que aqueles produzidos por outras alternativas e que, portanto, são
os artefatos mais úteis que se possa produzir é falso: eles apenas são científicos em um
certo sentido e úteis para um reduzido grupo de pessoas.
3. No âmbito da ciência, pode-se estabelecer uma ligação entre empobrecimento cultural
e intelectual e o patenteamento: pela tecnociência contemporânea o
público
conhecimento, ideal da ciência moderna, torna-se conhecimento privado – o que impede o
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Pablo Rubén Mariconda & Maurício de Carvalho Ramos
teste e o julgamento crítico da comunidade científica. A intersubjetividade dessa comunidade
pode ser apontada como a única esfera epistemologicamente válida de modo
universal; assim, limitar-lhe o poder pela privatização de informação implicaria comprometer
a aceitação teórica em sua raiz. Nos termos de Shiva,
monopólio das grandes empresas”
Em suma, a pesquisa e o uso dos transgênicos que aceita a inevitabilidade de seu
financiamento privado e de seu patenteamento baseia-se em uma posição indefensável
seja no plano da ética conseqüencialista (utilitarista) seja no plano das próprias práticas
científicas, colidindo com valores cognitivos centrais que fazem parte da imparcialidade.
A combinação destas duas características implica reais conseqüências devastadoras
para a ciência, seja em sua dimensão puramente cognitiva, seja em sua dimensão
ética e valorativa.
De tudo o que dissemos esperamos também ter deixado claro que nossas posições
não se voltam contra a própria pesquisa com transgênicos
de como ela seja desenvolvida
estamos falando a favor de um conhecimento livre de ingerências externas que se
mascaram de humanistas e progressistas para impor uma ideologia que se volta contra
o homem e inibe a liberdade do pensamento. O pesquisador em genética que deseja
ter uma prática cientificamente genuína, social e eticamente responsável, deve refletir
seriamente sobre os riscos decorrentes de sua crescente dependência da tecnociência.
“A mente se torna um.independentemente. Ao defendermos a imparcialidade da pesquisa científica
Pablo
Rubén Mariconda
Professor Associado do Departamento de Filosofia
da Universidade de São Paulo,
coordenador do Projeto Temático “Estudos de filosofia
e história da ciência” da FAPESP.
ariconda@usp.br
Maurício
de Carvalho Ramos
Pesquisador do Projeto Temático
“Estudos de filosofia e história da ciência” da FAPESP,
pós-doutorando do Departamento de Filosofia
da Universidade de São Paulo.
maucramos@usp.br
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Transgênicos e ética: a ameaça à imparcialidade científica
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